Xenófanes de Cólofon

Xenófanes de Cólofon (c. 570 – 478 a.C.) foi um filósofo e um severo crítico da cultura grega, abominava a forma antropomórfica e imoral dos deuses gregos e as ideias dos grandes poetas e filósofos que, em seu tempo, eram considerados os educadores de toda a Grécia[1].

Ele defendia a existência de um único deus, poderoso e que não possuía nenhuma semelhança com os homens. Era, de fato, um pensador independente, pois não estava ligado a nenhuma escola filosófica de seu tempo[2].

Biografia

Xenófanes, filho de Déxios[2], foi um poeta e filósofo pré-socrático nascido por volta de 570 a.C. em Cólofon[3], uma pequena cidade situada na Jônia. Sua morte ocorreu em 478 a.C., aos 92 anos.

Aos 25 anos, após Cólofon ser invadida pelos Medos, ele inicia sua jornada de andarilho[3], passando pelas colônias itálicas e outras cidades gregas recitando suas próprias composições poéticas como um rapsodo[2].

Diógenes Laércio, em Vidas e Doutrinas dos filósofos ilustres, fornece algumas informações sobre a conturbada vida de Xenófanes. Ele relata que Xenófanes se estabeleceu na cidade de Zancle, na Sicília, e em Catana, após ter sido banido de Cólofon. Além disso, foi vendido como escravo e resgatado pelos pitagóricos, e passou pelo difícil momento de ter que enterrar seu filho com as próprias mãos[2].

Além de poemas, Xenófanes também escreveu elegias e iambos criticando os maiores poetas da Grécia: Homero e Hesíodo[2].

A apoteose de Homero, de Jean Auguste Dominique Ingres
A apoteose de Homero, por Jean Auguste Dominique Ingres, 1827, via Wikiart. Imagem de Domínio Público.

Ele é conhecido por suas críticas ao antropomorfismo da religião politeísta grega, por isso se opôs aos poetas da antiguidade. De suas críticas também não escaparam Tales de Mileto, Pitágoras e Epimenides[2].

Por seu pensamento ter algumas semelhanças com os filósofos eleatas, ele foi considerado, por alguns doxógrafos, o fundador da Escola Eleática e mestre de Parmênides. No entanto, esta associação não parece ter fundamentos[4].

Xenófanes de Cólofon
Xenófanes, filósofo grego antigo – A história da filosofia: contendo as vidas, opiniões, ações e discursos dos filósofos de cada seita, por Thomas Stanley, 1655, via Wikimedia Commons. Imagem de Domínio Público.

Obras

Xenófanes escreveu seus poemas em hexâmetros e em versos elegíacos e iâmbicos[5], abordando assuntos relacionados à moral e doutrinas cosmológicas[6], muitos de seus fragmentos foram preservados.

Ele também escreveu paródias e poemas satíricos chamados Silloi (Σίλλοι)[5].

Diógenes lhe atribui as seguintes obras:

  • Fundação de Cólofon;
  • Colonização de Eléia;

Fontes antigas (Estobeu, Pólux) relatam que ele teria escrito uma obra chamada Sobre a Natureza, que continham suas ideias sobre física e cosmologia, mas é bastante improvável tal autoria, visto que ele não estava interessado rigorosamente em dar explicações sobre o mundo natural, como fez Heráclito, Anaxímenes e outros pré-socráticos[7].

A teologia de Xenófanes

Xenófanes tinha um especial interesse sobre a religião e os deuses gregos. Suas críticas influenciaram no desenvolvimento religioso posterior[8]. As críticas de Heráclito aos rituais de purificação por sangue e a adoração as estátuas gregas foram provavelmente influenciadas por Xenófanes[1].

a) Contra a imoralidade dos deuses

Xenófanes abominava a forma imoral como os deuses eram retratados nos poemas de Homero e Hesíodo. Ele afirmou:

Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que para os homens é opróbrio e vergonha: roubo, adultério e fraudes recíprocas.

Frag. 11.[9]

b) Contra o politeísmo

Xenófanes defendia a existência de um único deus, eterno, sem forma humana e dotado de um conhecimento infinito, que controla e interfere na realidade somente através do seu pensamento, e não por algum objeto externo, como muitas vezes Homero os retratou.

Este deus tem um corpo, mas é imóvel, pois mover-se, para deus, é algo desnecessário:

Um único deus, o maior entre deuses e homens, nem na figura, nem no pensamento semelhante aos mortais.

Todo inteiro vê, todo inteiro entende, todo inteiro ouve.

E sem fazer esforço move tudo com a força do seu pensamento.

Permanece sempre imóvel no mesmo lugar; e não lhe convém mover-se de um lugar para outro.

Frags. 23 – 26.

Estudiosos discutem se a visão teológica de Xenófanes é genuinamente monoteísta, pois em alguns fragmentos ele parece admitir a existência de outros deuses. Kirk (et al.) sustenta que dificilmente Xenófanes teria admitido a existência de deuses menores, e que a alusão a outros deuses não deve ser entendida literalmente, mas sim como um recurso enfático. No mesmo sentido, Barnes sustenta que Xenófanes era monoteísta da mesma maneira que os teólogos cristãos posteriores foram[10]. Lesher, por outro lado, argumenta que os fragmentos justificam atribuir a Xenófanes a ideia inovadora de um único deus, mas não a visão mais forte de que além desse único deus não poderia haver nada mais digno desse nome[11].

c) Contra o antropomorfismo

Para Xenófanes, os deuses não deveriam ser concebidos em formas humanas. Deuses com sentimentos como a ira, felicidade, inveja, tristeza, ou semelhante aos homens fisicamente, nada disso era aceitável para ele.

Mas os mortais imaginam que os deuses são engendrados, têm vestimentas, voz e forma semelhantes a eles.

Frag. 14.

Os indivíduos atribuem aos seus deuses suas mesmas características físicas. E se fosse possível, as diferentes espécies de animais também inventariam deuses com suas características. Diz Xenófanes de forma satírica:

Tivessem os bois, os cavalos e os leões mãos, e pudessem, com elas, pintar e reproduzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada (espécie animal) reproduzindo a sua própria forma.

Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz chato, os trácios dizem que têm olhos azuis e cabelos vermelhos.

Frag. 15-16.

Assim, Xenófanes condenava todos os deuses da religião grega como algo sem valor e subjetivo; a teologia homérica deveria ser abandonada. Trata-se, sem dúvidas, de uma forma bastante original de se pensar o divino naquele período histórico.

A luta entre Marte e Minerva de Jacques-Louis David
A luta entre Marte e Minerva, por Jacques-Louis David, 1771, obra inspirada na Ilíada de Homero. via Wikiart. Imagem de Domínio Público

d) Panteísmo

Alguns doxógrafos atribuíram a Xenófanes um certo tipo de panteísmo por sua concepção de um deus Uno. Aristóteles, por exemplo, interpretou esta ideia como se deus e o mundo fossem uma única coisa[12]. No entanto, esta interpretação não parece se justificar[13], uma vez que Xenófanes estabelece uma distinção entre deus e as coisas, ao comentar que deus pode tudo mover através do seu pensamento[14] .

A terra e água como arché

Para Xenófanes, tudo que existe provém e é feito de terra e água.

Pois tudo sai da terra e tudo volta à terra.

Tudo o que nasce e cresce é terra e água.

Nascemos todos da terra e da água.

Frags. 27, 29, 33.

Em harmonia com sua concepção teológica, ele defendeu também a unidade e imutabilidade do mundo.

O mundo é não gerado, eterno, incorruptível.

Aetius, II, 4, 11

Crítica social

Em seus fragmentos, Xenófanes também critica certos comportamentos e costumes sociais. Ele condenou as honras concedidas ao atletas gregos, afirmando que o saber é mais valioso do que a força física; as fábulas inventas pelos antigos que são narradas pelos poetas nos simpósios; as vestimentas luxuosas e outras vaidades dos colofonenses[15].

Física e astronomia

Segundo os doxógrafos, Xenófanes defendia as seguintes teses[16]:

  • O sol é constituído de pequenas porções de fogo aglomeradas;
  • O mundo não foi gerado, pois é eterno e incorruptível;
  • Existem infinitos sóis e luas;
  • A terra é infinita em extensão;
  • O arco-íris é uma nuvem púrpura, vermelha e amarela;
  • O vento se origina do mar;

Perguntas frequentes

Quem foi Xenófanes de Cólofon?

Xenófanes de Cólofon foi um filósofo e poeta pré-socrático que nasceu por volta de 570 a.C. em Cólofon, na Jônia. Ele foi um severo crítico da cultura grega e da forma antropomórfica e imoral dos deuses gregos.

Como Xenófanes entendia deus?

Xenófanes defendia a ideia de um deus único, poderoso e que não possui nenhuma semelhança com os homens. Ele rejeitava a ideia antropomórfica e imoral dos deuses gregos.

Em que consiste a crítica antropomórfica de Xenófanes?

A crítica antropomórfica de Xenófanes consistia em criticar a representação dos deuses na mitologia grega com forma humana. Ele argumentava que os seres humanos tendiam a criar deuses à sua própria imagem, atribuindo-lhes características humanas.

O que era a arché para Xenófanes?

Para Xenófanes, a arché era a terra e a água.

Quadro sinóptico

Filósofo
Xenófanes de Cólofon
Nascimento – morte570 a.C. – 478 a.C.
ObrasSobre a natureza; Fundação de Cólofon; Colonização de Eleia;
PeríodoPré-socrático
EscolaEleata
Principais conceitosAntropomorfismo religioso como uma projeção humana; A existência de um deus uno, sem forma humana; O princípio de tudo é a terra e água;
Influenciado porHomero, Hesíodo, Tales, Epimenides
InfluenciouHeráclito, Parmênides, Pirro, Tímon de Fliunte

Referências

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2006.

BARNES, Jonathan. Los Presocráticos. Traducción: Eugenia Martín López. Madrid: Cátedra, 2000.

BORNHEIM, Gerd A. (Org.) Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998.

DIÓGENES LAÉRTIOS. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2. ed. Tradução de Mário G. Kury. Brasília: Editora UnB, 2008.

GUTHRIE, W. K. C. Historia de la filosofia griega I, los primeros presocráticos y los pitagóricos. Trad. Alberto Medina González. Madrid: Editorial Gredos, 1984.

JAEGER, Werner. The theology of the early greek philosophers. Oxford, 1936.

KIRK, G.S., RAVEN, J.E. e SCHOFIELD, M. Os Filósofos Pré-Socráticos: história crítica e seleção de textos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

LESHER, J. H. Xenophanes of Colophon: Fragments, a text and translation with commentary. Toronto: University of Toronto Press, 1992.

_______. Xenophanes, The Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2021. Edward Zalta (ed.). Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/xenophanes/. Acesso em: 20 de fev. de 2023.

MARÍAS, Julián. História da Filosofia. Trad. Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

PATZIA, Michael. Xenophanes (c. 570—c. 478 B.C.E.), Internet Encyclopedia of Philosophy, [s.d.]. Disponível em: https://iep.utm.edu/xenoph/. Acesso em: 20 de fev. de 2023.

Notas

  1. KIRK et al., 1983, p. 172.
  2. DIÓGENES, IX, 2, 18-20.
  3. KIRK et al., 1983, p. 168.
  4. KIRK et al., 1983, p. 176: “Xenófanes chegou ao conceito do deus uno por reacção contra o politeísmo antropomórfico de Homero; Parménides chegou à esfera do Ser por uma inferência lógica a partir de um axioma puramente existencial. Os processos são absolutamente diferentes, e, como já foi sublinhado, não é provável que Parménides tenha sido discípulo de Xenófanes […]”.
  5. KIRK et al., 1983, p. 170.
  6. MARÍAS, 2004, p. 22.
  7. KIRK et al., 1983, p. 170-171.
  8. JAEGER, 1936, p.52.
  9. Sobre os fragmentos de Xenófanes: cf. BORNHEIM, 1989.
  10. KIRK et al. 1983, p. 174; BARNES, 2000, p. 115.
  11. LESHER, 1992, p. 99.
  12. ARISTÓTELES, Metafísica. A 5, 986 b 21.
  13. KIRK et al., 1983, p. 177.
  14. Cf. Frag. 25.
  15. Frags. 2, 1, 3.
  16. KIRK et al., 1983, p. 177-184.

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