fbpx

A verdade indubitável de Descartes

A busca de Descartes pela verdade indubitável

Descartes em suas Meditações pretende encontrar uma verdade indubitável. E para encontrar esta verdade, ele começa analisando se aquelas supostas verdades transmitidas a ele por meio da tradição são de fato verdadeiras, no sentido de serem inquestionáveis.

No desenvolver de suas meditações filosóficas, Descartes faz da dúvida o próprio método para alcançar o seu objetivo, estendendo suas incertezas até mesmo sobre a realidade das coisas no mundo.

Os sentidos nos enganam

Para ele, não há evidência (e nem provas) de que as coisas no mundo existem de fato; nem mesmo podemos ter certeza dos resultados matemáticos mais simples.

Para provar esse ponto de vista, ele argumenta demostrando como a experiência sensível pode nos enganar; por exemplo, um pedaço de madeira mergulhado em um rio que parece distorcido para nossa visão, quando na realidade ele permanece intacto. Isso demonstraria o caráter enganador inerente aos sentidos, logo não podemos confiar neles totalmente (DESCARTES, 1974, 94).

O método da dúvida radical é um dos pilares do pensamento cartesiano.

Como Descartes fundamenta o cogito ergo sum?

Após duvidar de tudo aquilo que não se impõe à sua consciência como uma verdade inegável, Descartes finalmente encontra aquilo que para ele é a verdade indubitável: penso, logo existo.

Ora, posso duvidar da existência do mundo, do céus, do universo e até do meu próprio corpo, mas não posso duvidar de que penso, pois a própria dúvida é um ato do pensar; se não houvesse pensamento, não haveria dúvida.

E mesmo que um Deus enganador use de seu poder para inculcar em mim todo tipo de engano, ainda será o próprio pensar que é enganado.

O pensar, por isso, tem uma primazia e constitui o fundamento indubitável do conhecimento humano. Descartes rejeita até mesmo a tradicional definição de homem como animal racional, pois “animal” e “racional” são ideias derivadas da nossa experiência com o mundo (conhecimento a posteriori, e defende que o homem, na verdade, é uma coisa pensante (res cogitans).

As ideias claras e distintas.

Importante também são as considerações sobre a natureza das ideias. Para Descartes (1974, p. 110), há três tipos de ideias, diz ele:

“Ora, destas idéias, umas me parecem ter nascido comigo, outras ser estranhas e vir de fora, e as outras ser feitas e inventadas por mim mesmo”.

  • ideias inatas são as que estão presentes no homem desde o nascimento;
  • as vindas de fora são aquelas provenientes da experiência sensível;
  • as ideias inventadas são as que derivam do exercício da imaginação, que cria ideias fantasiosas ou verossímeis.

Descartes e a prova da existência de Deus

Existe no pensamento humano a ideia de um ser perfeito, infinito e imutável, ou seja, a ideia de Deus. A ideia de perfeição e infinito não parece provir do mundo, onde só há objetos finitos e mutáveis. Descartes busca explicar a origem desta ideia na mente humana, pois como poderia um ser imperfeito com um pensamento limitado ter uma ideia de um ser perfeito, imutável, ilimitável?

A resposta de Descartes é que tal ideia é inata, e é o próprio Deus que a coloca no intelecto humano, porque seria impossível elas terem surgido na mente de outra forma.

Este argumento está ancorado no princípio de causalidade, elucidado por Descartes da seguinte forma:

“é coisa manifesta pela luz natural que deve haver ao menos tanta realidade na causa eficiente e total quanto no seu efeito: pois de onde é que o efeito pode tirar sua realidade senão de sua causa?” (1974, p. 112).

Isto quer dizer que um efeito guarda proporções com sua causa; se possuímos a ideia de um ser perfeito, ela jamais poderia provir do nosso mundo imperfeito, mas sim de uma causa semelhantemente perfeita, que é Deus.

E dentre as ideias inatas está também as ideias matemáticas. Proporcionando um fundamento para a matemática, Descartes proporcionará também um porto seguro para o crescente espírito científico de sua época.

Referência

DESCARTES, René. Discurso do Método. As Paixões da Alma. Meditações. Objeções e Respostas. Introdução de Gilles-Gaston Granger. Prefácio e notas de Gérard Lebrun. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1974.

NEWSLETTER

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

nove − cinco =