Tomás de Aquino

Tomás de Aquino foi um santo, filósofo e teólogo da Idade Média que buscou conciliar a fé cristã e a filosofia grega antiga.

Sua principal referência filosófica foi Aristóteles, de quem emprestou vários conceitos e teses metafísicas.

Biografia

São Tomás de Aquino nasceu em Roccasecca entre os anos de 1224 e 1225[1]. Aos 15 anos, estudou na Universidade de Nápoles, fundada por Frederico II, onde teve contato com a filosofia de Aristóteles e com a filosofia árabe, sobretudo a filosofia de Avicena (980 – 1037).

Tornou-se frade da ordem dos dominicanos em 1244, ainda em Nápoles, mesmo contra a vontade de sua família. E em 1245, iniciou seus estudos na faculdade de Teologia em Paris, tendo como mestre Alberto Magno. Em 1248, Tomás acompanha seu mestre, encarregado de dirigir o novo studium generale estabelecido pela Ordem Dominicana em Colônia, onde também, no final de sua estadia, escreveu seu primeiro texto teológico: Comentário sobre Isaías.

De 1252 a 1256, Tomás de Aquino exerce sua docência na qualidade de bacharel sentenciário[2] na Universidade de Paris, onde escreveu obras de relevância como o De Veritate, os Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo e o opúsculo O ente e a essência (De ente et essentia)[3].

Terminando sua docência em Paris, retorna à Itália (1259 – 1267), período bastante fecundo. São deste período: os Comentários à Física, à Metafísica e à Ética de Aristóteles; Catena Aurea, as Quaestiones De Anima, o Tractatus contra errores Graecorum e a Suma contra os Gentios[4].

Tentação de São Tomás de Aquino
Tentação de São Tomás de Aquino, por Diego Velázquez, c.1631, via wikiart. Imagem de Domínio Público.

Tomás retorna a Paris em 1269, encontrando uma cidade bastante agitada religiosa e intelectualmente, pelas disputas doutrinais acerca do pensamento de Aristóteles[5]. Em contraste com a pacífica estadia na Itália, cuja produção literária visava mais o ataque aos erros de filósofos do passado, em Paris Tomás se coloca em oposição direta aos pensadores de sua época, como Guilherme de Saint-Amour e Siger de Brabante. Contra este último, Tomás escreveu o seu tratado De unitate intellectus contra Averroistas[6].

Além desses embates no campo filosófico, Tomás entra em defesa da vida religiosa mendicante contra os mestres seculares[5]. Devido às perseguições contra as ordens mendicantes da qual era membro, Tomás retorna a Nápoles, onde passa a ensinar.

Em 1274 é convocado pelo Papa Gregório X para o concílio geral de Lyon, porém adoece no meio da viagem e acaba falecendo aos 49 anos. Foi canonizado em 18 de julho de 1323 pelo papa João XXII. Em 15 de abril de 1567 é declarado Doutor da Igreja por Pio V.

Filosofia

O grande desafio filosófico de Tomás de Aquino foi conciliar a filosofia de Aristóteles com o pensamento cristão, ou seja, fé e razão.

A metafísica de Aristóteles serviu de apoio para as suas grandes teses e argumentos como, por exemplo, as 5 vias que provam a existência de Deus. Mas o que é metafísica de Aristóteles?

Para Aristóteles, a “Filosofia Primeira”, chamada posteriormente de Metafísica por Andrônico de Rodes[7], possui diversas definições:

  • ciência mais elevada, superior a qualquer outra[8];
  • ciência das primeiras causas e dos primeiros princípios;
  • ciência do ser enquanto ser, isto é, do ser abstraído de toda e qualquer materialidade e individualidade[9]

A investigação metafísica levou Aristóteles ao estudo de uma variedade de conceitos e princípios inerentes ao próprio ser, como: substância, acidente, essência, matéria, forma, etc. Estes conceitos originalmente aristotélicos integram o sistema filosófico e teológico de Aquino.

No ocidente medieval, as obras de Lógica e Retórica de Aristóteles eram as mais conhecidas. A partir do século XIII, houve um florescimento filosófico científico devido há vários fatores como, por exemplo, a criação das universidades e o contato com obras filosóficas desconhecidas até aquele momento[10]. É nesse contexto que, por meio dos árabes, outras importantes obras do Estagirita, como a Física e a Metafísica, chegam aos filósofos medievais ocidentais.

Tomás foi fortemente influenciado pela filosofia de Aristóteles – e em grande parte pelo pensamento de Avicena[11]-, se valendo dela em suas principais teses metafísicas[12]. Entretanto, Tomás não se limita a ser um mero repetidor ou comentador de Aristóteles, por meio da metafísica aristotélica, constrói a sua própria. Sobre isto, Hugon afirma:

Não se pode deixar de reconhecer que S. Tomás seguiu as trilhas de Aristóteles, mas ele reformulou de tal modo os ensinamentos do Estagirita, que arquitetou uma outra filosofia.

HUGON, 1998, p. 12.

O pensamento filosófico de Aquino se mostra dominado por sua teoria ontológica, por isso se diz comumente que ele elaborou uma filosofia do real e do ser[13].

O triunfo de Tomás de Aquino
O triunfo de São Tomás de Aquino, por Benozzo Gozzoli, 1468, via wikiart. Imagem de Domínio Público.

A distinção entre ente e essência

Uma das teses mais importantes elaboradas por Aquino é a distinção entre ente e essência. Para ele, existem entes (seres) que não possuem a existência como essência, isto é, entes que podem ou não existir, por exemplo, uma mesa, cadeira, um ser humano, etc. Estes entes são chamados contingentes.

Por outro lado, há um ente cuja essência é existir, ou seja, este ente existe necessariamente. Tomás denomina este ente como esse per se subsistens (ente subsistente por si), este ser é Deus.

Com esta doutrina é que Tomás irá diferenciar o ser de Deus do ser dos demais entes. Em Deus há perfeita identificação entre essência e ser, enquanto os demais entes recebem o ser, isto é, não o possuem por sua essência[14]. Entretanto, estes dois princípios não podem ser concebidos como totalmente separados, muito menos “coisificados”[15].

A analogia do ser

Tudo que existe é denominado ente. No entanto, os entes não existem de modo idêntico, por exemplo, Deus e o mundo material existem de modos diferentes.

Dizemos que o mundo existe, portanto, de modo análogo: o mundo tem ser, e Deus é o próprio ser.

Teologia

Em Tomás, teologia e filosofia não são opostas, mas complementares. No entanto, a teologia exerce um papel superior, e a filosofia é considerada sua serva.

A filosofia é entendida como preambulum fidei (preâmbulo da fé), isto é, uma disciplina introdutória que dá sustento racional à fé cristã. Questões como a existência de Deus eram consideradas possíveis de serem provadas pela razão, e não precisava apenas da fé para acreditar na sua existência. Tomás afirma:

Há verdades que superam todo poder da razão humana, como, por exemplo, a verdade de que Deus é uno e trino. Outras verdades podem ser pensadas pela razão natural, como as verdades de que Deus existe, de que Deus é uno, e outras mais.

Súmula contra os gentios, 1973, p. 70.

No fim das contas, o que os filósofos escolásticos queriam era demonstrar que a fé cristã não era irracional, absurda. Mesmo considerando a teologia superior, Tomás não defendia que ela poderia substituir a filosofia.

Obras

Aquino escreveu diversas obras filosóficas e religiosas, dentre as quais podemos citar:

Sumas

Obras e opúsculos filosóficos

Comentários bíblicos

  • Expositio super Isaiam ad litteram (Comentário Literal sobre Isaías);
  • Postilla super Ieremiam (Comentário sobre Jeremias);
  • Postilla super Threnos (Comentário sobre as Lamentações);
  • Comentários às sentenças de Pedro Lombardo;
  • Comentário ao De Trinitate de Boécio;
  • Comentário ao De divinis nominibus de Pseudo-Dionísio;

Questões Disputadas

  • Quaestiones disputatae de veritate ( Questões disputadas sobre a verdade);
  • Quaestiones disputatae de potentia (Questões disputadas sobre a potência);

Quadro sinóptico

Filósofo
Tomás de Aquino
Nascimento – morte1224-1274
Principais obrasSuma Teológica; Suma contra os Gentios
PeríodoFilosofia Medieval
Escola – doutrinaEscolástica – Tomismo
Principais conceitosDistinção entre ente e essência; Analogia do ser; 5 vias; Deus como ato puro, ser por si subsistente
Influenciado porAristóteles, Platão, Agostinho, Avicena, Averróis, Boécio, Alberto Magno, Anselmo de Cantuária
InfluenciouTomás Caetano, Francisco Suárez, Etienne Gilson, Reginald Garrigou-Lagrange, Jacques Maritain, Sertillanges

Referências

AQUINO, Tomás de. Súmula contra os gentios. São Paulo: Abril cultura, 1973.

ARISTÓTELES. Metafísica. Editora Globo de Porto Alegre, biblioteca dos Séculos, tradução de Leonel Vallandro, 1969.

BERTI, Enrico. As Razões de Aristóteles. Tradução de Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 1998.

DE BONI, Luis Alberto. Estudos sobre Tomás de Aquino. Pelotas: NEPFIL Online, 2018.

GARDEIL, Henri-Dominique. Iniciação à filosofia de São Tomás de Aquino. Tradução de Cristiane Negreiros Abbud Ayoub e Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Paulus, 2013.

GILSON, Étienne. A existência na filosofia de S. Tomás. Trad. de Geraldo. Pinheiro Machado; Gilda Mellilo; Yolanda Balcão. São Paulo: Duas Cidades, 1962.

GILSON, Étienne. El Tomismo: Introducción a La Filosofía de Santo Tomás de Aquino. Trad. Alberto Oteiza Quirno. Buenos Aires: Ediciones Desclée de Brouwer, 1951.

HUGON, Édouard. Os princípios da filosofia de São Tomás de Aquino. Tradução de D. Odilão Moura O. S. B. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.

KOVAS, João Evangelista. O De Ente et Essentia de São Tomás de Aquino (§§ 1-19): uma comparação com o livro Z da Metafísica de Aristóteles. Dissertação de Mestrado. (Mestrado em Filosofia). Faculdade de São Bento. São Paulo, 2011.

MANSER, Gallus. La esencia del Tomismo. Tradução de Valentín García Yebra. Madrid: CSIC, 1947.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: patrística e escolástica. Vol. 2, 2ª. ed. São Paulo: Paulus, 2005.

SANTOS, Luiz Fernando dos; FERNANDEZ, Daniel Lipparelli. O Ser em São Tomás de Aquino. Linguagem Acadêmica, Batatais, v.2, n.2, p. 51-64, jul./dez. 2012.

TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino: sua pessoa e obra. Tradução de Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2004.

WIPPEL, J. F. The Metaphysical Thought of Thomas Aquinas. From Finite Being to Uncreated Being. Washington D.C., The Catholic University of America Press, 2000.

Notas

  1. TORREL, 2004, p. 1.
  2. Bacharel sentenciário é um assistente de um professor mestre, ou seja, é alguém que está em vias de obter o grau de mestre para, assim, assumir uma cátedra. Recebe esse nome porque, enquanto bacharel e realizando o estudo para obter o grau de mestre, tem de comentar as Sentenças de Pedro Lombardo, uma espécie de manual de teologia da época.
  3. MANSER, 1947, p. 6.
  4. MANSER, 1947, p. 8.
  5. TORREL, 2004, p. 213.
  6. MANSER, 1947, p. 9.
  7. Nome dado por Andrônico de Rodes (século I a.C.), o qual organizou a primeira edição complexiva dos tratados de Aristóteles, Cf. BERTI, 1998, p. 43.
  8. ARISTÓTELES, Metafísica, A 2, 983a 10.
  9. ARISTÓTELES, Metafísica, IV 1, 1003a21.
  10. REALE, 2005, p. 189.
  11. SANTOS, 2012, p. 51.
  12. DE BONI, 2018, p. 46: “Tomando o peripatetismo a partir de sua contextura interior, recusava-lhe contudo os pontos que pareciam inaceitáveis, completava e concluía o que julgava ter ficado a meio-caminho, utilizava a técnica, mas no final não se tinha uma reedição de Aristóteles, e sim um pensamento original, falando sua própria linguagem”.
  13. GILSON, 1951, p. 45: “Se ha repetido muchas veces que toda la metafísica de Santo Tomás y, en consecuencia, toda su filosofía está dominada por su concepción de lo real y del ser. Nada más exacto”.
  14. KOVAS, 2011, p. 77: “A distinção entre ser e essência é intrínseca às coisas. Há em todos os entes, exceto Deus, uma mescla de potência em relação ao ser: eles recebem o ser, não o têm por sua própria essência”.
  15. HUGON, 1998, p. 51: “[…] não se pretende que a essência e a existência sejam duas realidades independentes, ou separada uma da outra, ou produzida por Deus separadamente e unidas depois; mas queremos dizer que a primeira se diferencia da segunda, como a potência real do ato real”.

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