Hipárquia de Maroneia

Hipárquia (c. 350 a.C. — c. 280 a.C.) foi uma filósofa cínica, esposa de Crates de Tebas e irmã de Metrocles.

Biografia

Proveniente de uma família rica, Hipárquia nasceu em 350 a.C., em Maroneia, Trácia. Sua família mudou-se para Atenas, onde seu irmão Metrocles conheceu o filósofo Crates de Tebas.

Crates era discípulo de Diógenes de Sínope e um dos principais representantes do Cinismo, escola filosófica fundada por Antístenes.

Gravura de Hipárquia de Maroneia por Girolamo Olgiati
Gravura imaginária da filósofa Hipárquia de Maroneia, por Girolamo Olgiati, 1580, via Wikimedia Commons. Domínio público.

Segundo Diógenes Laércio, Hipárquia se apaixonou pelas teorias e pelo modo de viver de Crates e, rejeitando todos os outros pretendentes mais jovens e atraentes, decidiu casar-se com ele, embora seus pais não quisessem.

Hipárquia ameaçou tirar a própria vida, caso fosse proibida de se casar com o filósofo cínico. Diante disso, seus pais pediram a Crates que a convencesse a desistir desse intento. Não obtendo sucesso em persuadi-la, Crates despiu-se diante dela e declarou: “Aqui está o futuro marido e aqui estão os seus bens; agora cabe a você decidir, pois só poderá ser minha esposa se aceitar viver conforme o meu modo de vida”.

Hipárquia, aceitando o desafio, abriu mão de sua vida confortável e passou a viver ao lado de Crates, acompanhando-o publicamente e adotando o mesmo estilo de vida e vestimentas. Juntos tiveram dois filhos, um deles chamado Pasiclés.

Segundo Apuleio[1], o casal mantinham relações sexuais em público. O relacionamento entre os dois era conhecido como kynogamia (casamento canino) e causava grande espanto na antiguidade.[2]

Gravura representando os filósofos gregos Hipárquia de Maroneia e Crates de Tebas, por Crispijn van den Queborn
Gravura representando os filósofos gregos Hipárquia de Maroneia e Crates de Tebas, por Crispijn van den Queborn, 1643, via Wikimedia Commons.

Filosofia

Hipárquia aderiu aos princípios da filosofia cínica, tais como a valorização da liberdade e da autossuficiência (autarquia), assim como a recusa das normas e costumes sociais.

Segundo fontes antigas, ela teria escrito alguns tratados de filosofia e cartas destinadas a Teodoro, o ateu, porém nada chegou até nós. Diógenes Laércio relata um diálogo entre ela e Teodoro:

Em um banquete na casa de Lisímacos que ela refutou Teodoro, congnominado o Ateu, usando o seguinte sofista: “O que teodoro faz sem ser considerado injusto, Hipárquia também faz sem ser considerada injusta; Teodoro não comete uma injustiça ferindo-se a si mesmo; logo, Hipárquia também não comete injustiça ferindo Teodoro.

DL, VI, 7, 97-98

Incapaz de contra-argumentar, Teodoro despiu Hipárquia para envergonhá-la, porém a filósofa não demonstrou surpresa alguma, contrariando as expectativas.

Em outro momento, na tentativa de constrangê-la, Teodoro disse a Hipárquia: “quem abandonou a lançadeira junto ao tear”. Era uma maneira indireta de acusá-la de ter abandonado suas responsabilidades domésticas em busca de atividades impróprias. Porém, ela prontamente respondeu: “Fui eu, Teodoro, mas acredita que tomei uma decisão equivocada ao dedicar meu tempo à minha educação em vez do tear?”.

Em uma epigrama da Antologia Palatina de Antípatro de Sídon, há uma referência a Hipárquia, na qual ela declara:

Em vez do papel de uma mulher elegantemente vestida, eu, Hipárquia, escolhi o modo de vida exclusivamente exigente dos cínicos. Não me importo com xales presos com fechos, sapatos ou filetes elegantes para manter meu cabelo no lugar. Alimentada com farinha de cevada, apoiada em meu cajado, com meu manto dobrado que serve de vestimenta durante o dia e à noite como cama no chão rochoso, supero Atalanta da Arcádia, na medida em que a sabedoria supera o dom de ser ágil.

Antípatro de Sidon, Antologia Palatina 7. 413.
Atalanta de Arcádia
Atalanta de Arcádia: uma lendária caçadora e heroína, conhecida por sua velocidade. Nicolas Colombel, 1644.

Nas Epístolas Cínicas, encontramos cartas que foram supostamente escritas por Crates para Hipárquia, encorajando-a a permanecer no estilo de vida cínico. No entanto, é conhecido atualmente que essas cartas foram escritas apenas no século I d.C. e, portanto, não são autênticas. De todo modo, essas cartas oferecem-nos um exemplo de como os cínicos eram vistos naquela época.

Não foi por sermos totalmente insensíveis que as pessoas chamaram nossa filosofia de “canina”. Em vez disso, é o fato de desafiarmos corajosamente a dor e a opinião popular, quando a maioria das pessoas não consegue. Essa é a verdadeira razão pela qual o rótulo “cão” foi atribuído a nós pela primeira vez. Portanto, persista em seu cinismo conosco. Você não é mais fraca por natureza, assim como as cadelas não são mais fracas do que os cães machos.

Pintura do filósofo cínico Crates, artista desconhecido
Pintura do filósofo cínico Crates, artista desconhecido, séc. XVII.

Em outra carta, Crates orienta Hipárquia sobre seu papel como esposa cínica:

Estou devolvendo a roupa que você costurou e enviou para mim. Vivemos uma vida de privações e tais coisas não nos são permitidas. Também quero desencorajá-la a fazer esse tipo de trabalho […] Se eu tivesse me casado com você com essa intenção, certamente você agiria apropriadamente e sua dedicação seria muito evidente para mim. Mas já que me casei com você devido à filosofia — com a qual você mesmo está comprometida — abandone tais atividades e almeje o benefício da raça humana como um todo. Isso é o que lhe foi ensinado por mim e por Diógenes.

Quadro sinóptico

Filósofa
Hipárquia de Maroneia
Nascimentoc. 350 a.C. – Maroneia
Mortec. 280 a.C.
PeríodoHelenístico
EscolaCinismo
Influenciado porCrates de Tebas

Referências

AGGIO, Juliana. Hipárquia de Maroneia. Enciclopédia mulheres na filosofia. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/hiparquia-de-maroneia-2/.

DIÓGENES LAÉRTIOS. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2. ed. Tradução de Mário G. Kury. Brasília: Editora UnB, 2008.

DOBBIN, Robert (ed. e trad.) The cynic philosophers: from Diogenes to Julian. Londres: Penguin Classics, 2012.

DUDLEY, D. R. A History of Cynicism: from Diogenes to the 6th Century A.D. London: Methuen & CO. LTD, 1937.

RANKIN, H. D. Sophists, Socratics and Cynics. London: Croom Helm, 1983.

Notas

  1. Apuleio, Florida, 14.
  2. Do grego κύων (Kyno): cão. De onde igualmente provém a palavra cínico e cinismo.

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